Rei Amador

“ um documento de 1531, dá-nos conta da preocupaçao da Coroa portuguesa perante o progressivo controlo do interior da ilha de Sao Tomé pelos Africanos que, ao longo do século, procedem à ocupaçao dos espaços despovoados, mediante operaçoes levadas a cabo fora da intervençao e da direcçao das autoridades portuguesas. (...)

As duras condiçoes de vida e de trabalho na plantaçao eram as principais razoes que provocavam tais fugas para o interior, onde estes homens e mulheres africanos se reorganizavam procurando proteger-se, subsistir e impedir a penetraçao das autoridades portuguesas. Mais tarde, foi a partir deste interior “africanizado” que foram atacados os engenhos e as regioes sob controlo português. (...)

Em 1535, uma carta dos juízes de Sao Tomé aos oficiais régios assinala o agravamento da situaçao: “fazemos saber a vossas mercês e como é verdade e notório que mocambo1 com muita gente andam no mato e fazem quanto dano pode e matar e roubar homens e destruir fazendas, o que todo é perda e dano do povo desta ilha e moradores dela e desserviço del Rei”2. (...)

Se este início da segunda metade do século é particularmente marcado por uma agitaçao provocada pelos Mulatos, “os Filhos da Terra”, descontentes com a situaçao de discriminaçao política e social que lhes era imposta pelas autoridades portuguesas em benefício dos “brancos”, isto é, dos Portugueses vindos do reino3, a “ameaça negra vinda do mato” nao deixa de ser a principal causa da insegurança permanente em que vivem os moradores da ilha.

No último quartel do século a situaçao vai de novo agravar-se com fugas de escravos para o interior da ilha, revoltas que se multiplicam nas roças e ataques cada vez mais frequentes aos engenhos e plantaçoes. Em 1574, grupos numerosos de Africanos aproximam-se da Cidade de Sao Tomé, sendo obrigados a recuar pela populaçao.

“No ano de 1595 um preto da Ilha de S. Tomé, chamado Amador, se levantou com os homens da sua cor e se proclamou Rei da mesma ilha, cometendo os excessos que eram do esperar de uma besta feroz”, como se pode ler num documento da época4. Escravo de um “Gentilhomem chamado D. Ferdinando”5, Amador apresentava-se como “Capitao General das Armas digo (sic) de Guerra Rey nomeado absoluto com poder de dar liberdades a todos os captivos”6, arrastando atrás de si uma multidao de Africanos que “juraram obedecer-lhe até à morte”7.

A Relaçao setecentista de Manoel do Rozário Pinto fornece indicaçoes precisas sobre o exército de Amador: organizado em torno de cinco chefes principais8, movimentado-se segundo um plano bem definido para atacar os engenhos e a cidade9, o grupo era constituído por mais de 2500 Negros e Mulatos, entre os quais, o lugar-tenete do Rei, “um crioulo da fazenda de Ruy Dias”10. As destruiçoes, os incêndios e os combates semearam o pânico generalizado na populaçao da ilha, até à prisao e à morte de Amador. O choque pôs frente a frente uma grande massa de homens armados de arcos e flechas, contra um número mais reduzido, armado com arcabuzes11. A vitória coube, como aconteceu frequentemente no continente africano, aos Europeus – cujas tropas incluíam igualmente Negros e Mulatos – que dispunham armas de fogo.  Derrotados, os cinco chefes africanos que tinham apoiado Amador, decidiram entregá-lo aos Europeus, que o enforcaram e o esquartejaram12. O carácter da entrega do Rei aos Portugueses – facto geralmente silenciado -, revela que a solidariedade interafricana nao conseguiu resistir à violência da resposta militar portuguesa. O cimento que assegurava a uniao dos Africanos era a resistência aos Portugueses. Com a partida destes, desagregou-se a falsa uniao e cada grupo procurou, a partir de entao, subsistir colado à natureza.

Esta situaçao de instabilidade e de insegurança vivida na ilha, provocada pelos sucessivos ataques de “negros alevantados” e pela incapacidade das autoridades portuguesas em controlar o espaço santomense, agora ocupado pelos Africanos, é ainda agravada por outros factos que marcam negativamente a vida santomense. A desorganizaçao e a corrupçao dos poderes públicos, a discórdia permanente entre as autoridades religiosas e civis, o conflito entre Sao Tomé e Lisboa, os ataques dos corsários de diferentes nacionalidades reforçados depois da anexaçao de Portugal pela Coroa de castela, em 1580, e ainda a doença que ataca a cana sacarina, provocando a morte da planta e a destruiçao das colheitas sao os factores que contribuem decisivamente para que “os mais ricos proprietários fo(ssem) uns após outros emigrando para o Brasil”. Aí instalados, estes homens vindos da experiência santomense, reforçaram os grupos que iam ocupando, com o imenso mar verde das plantaçoes de cana-de-açucar, a costa atlântica americana, de Alagoas a Espírito Santo.” (HENRIQUES, 2000, pp. 110-120)

 

1 O termo mocambo é para a maioria dos autores brasileiros que analisam a questao sinónimo de quilombo (Ex.: A. PERDIGAO, A Escravidao no Brasil, 1867, p.21). Os dois termos, mas sobretudo o segundo, servem para designar as instalaçoes dos escravos africanos que se refugiavam no matio, longe dos Europeus. De origem africana, encontramos estes mocambos ou quilombos em Sao Tomé no século XVI, desempenhando a mesma funçao destinada a assegurar a preservaçao dos valores africanos (BRASIO (1535), vol. II, 1953, p.47).

2 BRASIO, vol.II, 1953, doc. De 1953, p. 46. Assinale-se a leitura incorrecta que Arlindo CALDEIRA (1999, p. 89) faz desta passagem do documento, transformando o “mocambo em “chefe rebelde”, quando o termo designa apenas a instalaçao dos Africanos no mato, o seu espaço de habitaçao, onde podem reconstruir a sua identidade africana.

3 Sobre esta questao ver o estudo de RAMOS, Rui, 1986, onde o autor, embora fazendo uma leitura europeizante das revoltas, fornece um grande número de indicaçoes interessantes.

4 BRASIO, vol. III, 1953, p. 524.

Id., Ibid., p.522

6 PINTO, Rozário (1734), 1970, p. 246.

7 BRASIO, vol. III, 1953, doc. de 1595, p. 522.

Id., Ibid., p. 523.

9 PINTO, R. (1734), 1970, pp. 245-248.

10 Id., Ibid., p. 247.

11 ver BRASIO, vol. III, 1953, doc. de 1595, p. 522.

12 Id., Ibid., p. 523, e também PINTO, R. (1734), 1970, pp. 241 e seguintes.

Bibliografia

CASTRO, Carlos Mota P. (2008). A luta anti-colonial em Sao Tomé e Príncipe, Lisboa, Tese de fim de curso, Instituto Superior Politécnico.

HENRIQUES, Isabel Castro (2000). Sao Tomé e Príncipe. A Invençao de Uma Sociedade, Lisboa, Editorial Vega.

SEIBERT, GERHARD (2011). "Rei Amador, história e mito do líder da revolta de escravos em Sao Tomé". Buala (online)


Castigos e torturas. 'O chicote', o castigo faz-se perante os escravos da plantaçao para servir de exemplo


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