Lusotropicalismo

"Também em conexão com a Tropicologia pode-se já falar num conceito lusotropical de civilização. Conceito que, aplicado, quer ao estudo de um passado comum a Portugal e ao Brasil como experiência pioneira e bem sucedida de integração, sob forma, por assim dizer, simbiótica, de europeus - homens e valores originais e decorrentes- em ecologia físicas e socioculturais tropicais, quer a uma política cultural, em vários aspectos solidária, das duas nações nos trópicos, comença a revelar-se actuante e dinâmico. Actuante e e dinâmico em sua capacidade de evidenciar afinidades maiores que as vagamente suspeitadas, entre as duas mesmas nações. (…) O próprio Portugal se apresenta hoje, tanto como o extremo meridional do Brasil, grandemente tropicalizado em suas formas culturais de vivência. Efeito do contágio do que é fisicamente nao-trópico com o culturalmente irradiante trópico, através, quase sempre, do veículo europeu: de europeu seduzido pelo trópico. Veículo só: nao: constante agente de uma penetrante europeuizaçao nao-violenta do trópico pelo europeu hispanico. Particularmente pelo europeu lusitano: o mais confraternizaste com populações, culturas e natureza tropicais." (FREYRE, 1972?, p.10)

 

"The Brazilian sociologist Gilberto Freyre initially theorized lusotropicalismo in the early 1930s to explain and valorize the Brazilian nation and the pivotal role of Africans and Amerindians in its formation. The theory was adopted and adapted as ideology by the Portuguese Estado Novo in the postwar period. In the face of intense international criticism and the pressure to decolonize1, the Portuguese state attempted to justify its continued presence en Africa and Asia in part by arguing that it had a unique ability to create harmonious racially egalitarian societies in the tropics2"   (MOORMAN, 2008, p.37)

"The discourse of lusotropicalism accompanied the transformation of the legal status of the colonies. In 1953 the Estado Novo instituted the Lei Organica do Ultramar Portugues (Organic Law of Overseas Portugal). This law, through legal and linguistic artifice, changed the colonies into overseas provinces of the Portuguese nation. Where there had been empire, now there was a single nation: spanning continents, one and indivisible, in the word of the state.  The Estado Novo touted lusotropicalism to obscure this dubious legal tinkering. Giving defining power to Portuguese culture, it aimed to explain precisely why the overseas provinces were no different than continental Portugal. Finally, the Estado Novo spun lusotropicalism as Portugal's contribution to European security in the context of the Cold War: " The future of Europe could be safeguarded only by the creation of a Euro-African space, in which Portugal was seen to have a blazed a trail, magically dispelling racism racism wherever its footprints were to be found."3. (MOORMAN, 2008, p.37)

 

"… Na escrita brilhantemente superficial de G. Freyre pode, portanto, ler-se que o « luso tropicalismo » é simultaneamente um conceito, uma teoria, um sistema e um método de colonização. Poder-se-ia, portanto, definí-lo como sendo :

1) Uma vocação congénita do português para ser atraído pela mulher de cor nas suas relações sexuais.

2) O desinteresse do português pela exploração económica nos trópicos.

3) A manutenção de relações sociais com os habitantes dos países tropicais tendentes à criação da mobilidade vertical na vida social e política.

Eis o corolário de tudo isto : uma parte da África, da Ásia, da Oceania e da América, dominadas por um pequeno número de portugueses valentes que levavam no sangue a herança tropical dos cruzamentos com os mouros, acusam a marca duma unidade de sentimento e de cultura: a civilização luso-tropical.

Não se poderia justificar melhor a colonização portuguesa!…" (PINTO DE ANDRADE, 1955)

 

"A number of Portuguese and Brazilian cientists have recently reorientated their research on various aspects of the activities of the Portuguese in the tropics, with reference to a Luso-tropical criterion. Dr. Almerindo Lessa, the eminent medical scientist, has come to the conclusion, as a result of his most recent research in the fields of sereology and anthropology, that there is a engenically healthy type of Luso-tropical half-breed.

Professor Orlando Ribeiro has already strongly supported the Luso-tropical theory, in its application to the ecology and geography of the tropical areas colonised by the Portugese, in several important works. Professor Henrique de Barros has done the same for the agriculture of these regions - a subject on which he is an outstanding authority. In Brazil, Professor Frois da Fonseca, the most highly qualified of Brazilian anthropologists, considers a Luso-tropical interpretation to be essential to a clear understanding of the basic facts of Brazilian development; which cannot be studied antropologically or sociologically without reference to other similar Portuguese settlements in the Tropics. The same opinions have been expressed by Brazilian geographers like Professor Hoel Sette, sociologists like Professor Diegues Júnior, social psychologists like Professor Gonçalves Fernandes, ethnologists like Professor Estêvão Pinto, and lawyers and public and international figures like Senator Lourival Fontes, the diplomat Adolfo Justo Bezerra de Menezes, the lawyer Oliveria Franco and General Lima Figueiredo., outstanding Portuguese supporters of the theory include Professors Ribeiro and Barros, legal experts specialising in political science; Professors Marcelo Caetano and Adriano Moreira, experts in public law; anthropologists like Professor Jorge Dias; and art historians like Professor Mário Chicó.¨ (FREYRE, 1961)

 

“Criou-se um mito com todas as peças. E como todos os mitos, sobretudo quando eles dizem respeito à dominação e exploração dos povos, não lhe faltou o ‘homem de ciência’, no caso um sociólogo renomado, para dar-lhe uma base teórica: o lusotropicalismo. Gilberto Freyre confundiu, talvez involuntariamente, realidades (ou necessidades) biológicas e realidades sócio-econômicas, históricas, e fez de todos nós, povos das províncias colônias portuguesas, os bem-aventurados habitantes do paraíso tropical)”. (CABRAL, 1969)

 

"[El portugués] Por todas aquellas felices disposiciones de raza, de mesología y de cultura a que nos referimos, no sólo consiguió vences las condiciones de clima y de suelo, desfavorables al establecimiento de europeos en los trópicos, sino también suplir la extremada escasez de gente blanca para la tarea colonizadora uniéndose con la mejor de color. Por su relación con la mujer indígena o negra, el colonizador se multiplicó en recia y dúctil población mestiza, quizá más adaptable aún que el puro clima tropical . La falta de población, que lo afligía más que a cualquier otro colonizador, obligándolo a la inmediata miscegenación -contra lo que, por otra parte, no le indisponían escrúpulos raciales, sino preconceptos religiosos-, fue para el portugués una ventaja en su obra de conquista y colonización, no sólo biológica sino también social." (FREYRE, casagrande, p.41)

"Contudo, os aspectos mais “desnacionalizadores” tais como a celebração do hibridismo e a mestiçagem ou a valorização dos variados contributos culturais (europeus, africanos, ameríndios e asiáticos) para uma civilização transnacional e lusotropical comum, teriam sido geralmente ignorados ou posto de parte pelo regime salazarista, justamente aqueles aspectos que anos mais tarde serão tidos como essenciais a uma identidade comum pós-colonial e lusófona. No entanto, numa leitura sugestiva de carácter simbólico oferecida por Madureira, o lusotropicalismo teria dotado o colonialismo português de uma força produtiva e sedutora, ao mesmo tempo que dinâmica do ponto de vista civilizacional, numa altura em que o colonialismo era já um anacronismo. Aqui convem novamente salientar que o Estado Novo só assimilou aquilo que lhe convinha ideologicamente, tendo em mente a veiculação de uma imagem externa positiva com propósitos diplomáticos ulteriores.

O subtexto erótico nessa imagem-mito decorrente da teorização gilbertiana, embora útil ao regime de Salazar em termo simbólicos, ilustraria o paradoxo no cerne da ideologia colonial portuguesa sugerida por Peter Fry (2004), isto é, a co-existência de duas “linhas morais” divergentes; uma representada pelo solteiro e apolíneo Salazar e outra pelo dionisíaco Gilberto Freyre. Esta dualidade radicaria em duas imagens ideais: por um lado, o lar pátrio. doméstico e assexuado, e por outro lado, o império viril e produtor de uma progénie mestiça." (ARENAS, 2010a)

 

"A « colonização portuguesa em África » é uma frase vazia de sentido, seja no domínio político-administrativo, económico ou qualquer outro, se não forem mencionados o período e as regiões a que se refere. As especificidades existem, mas terão de ser procuradas para cada lugar e momento da colonização. Há que analisar as doutrinas e também (e sobretudo?) as contradições da aplicação de tais doutrinas em situações específicas e a interacção entre colonizadores e colonizados. É evidente que as dinâmicas sociais que acompanharam a colonização não resultaram simplesmente do impacto de um « Luso » (abstracto e idealizado) sobre um « trópico » (ainda mais abstracto e subalternizado). Que, historicamente falando, não houve « um trópico » mas sim diversas civilizações nas regiões tropicais, já é hoje consenso geral. Mas também é preciso afirmar que « o luso » não existiu (nem « o gaulês » nem « o anglo-saxónico »), na história do avanço colonizador : existiram grupos, indivíduos, instituições de Estado e privadas, que agiram de modo diverso ou mesmo contraditório, condicionados pelas culturas do seu tempo e pelos interesses que defendiam. Uma das mais imediatas críticas teóricas a Gilberto Freyre é precisamente ao carácter essencialista da sua explicação, que acaba, assim, por se aproximar das concepções das teorias racistas que ele quis combater." (NETO, 1997)


"Apesar de se ter sensibilizado eventualmente face ao direito à autodeterminação das colónias portuguesas em África e de se ter afastado de forma relativa do regime salazarista4,  Gilberto Freyre e o seu contributo intelectual caíram consciente e inconscientemente nas malhas que o império teceu. Apesar de ser revolucionário na medida em que reconheceu como fundamental o contributo do africano para a formação do Brasil e de ter estudado minuciosamente e de ter celebrado a mestiçagem cultural (sobretudo no contexto brasileiro), numa altura pouco propícia a leituras multiculturais, o pensamento gilbertiano, uma vez focalizado nas realidades africanas, sofreu dos mesmos defeitos apontados pela crítica nos seus estudos relativos ao Brasil, que não cabe repetir neste ensaio. Todavia, as suas observações em torno das ex-colónias portuguesas em África sofreram sobretudo pela superficialidade, a brevidade do seu contacto directo com África, o eurocentrismo, a ahistoricidade, o etnocentrismo brasileiro, e principalmente, pela falta de uma análise rigorosa das relações de poder no contexto colonial, ou mesmo de uma consciência geopolítica mais apurada (várias destas críticas foram articuladas pelos intelectuais africanos abordados neste ensaio). Contudo, a atenção crítica a processos culturais de hibridação fez com que Gilberto Freyre se adiantasse por várias décadas à teorização das identidades e culturas híbridas no âmbito do pensamento pós-colonial e pós-moderno5.  Igualmente, o sociólogo lançou mal ou bem os alicerces conceptuais daquilo que seria, após as independências africanas, a lusofonia, cujas linhas de força e definição são ainda objecto de debate.

Além de ter destacado o papel de Portugal na construção de um espaço cultural comum lusotropical, Freyre nunca perdeu de vista o protagonismo presente e futuro do Brasil naquele espaço (mesmo em termos messiânicos), faltando-lhe, no entanto, uma visão mais clara acerca da evolução e o papel a desempenhar por parte das futuras ex-colónias portuguesas em África. As ambiguidades, as contradições, mas também o visionarismo, fazem parte do legado gilbertiano que ainda hoje reverbera na tentativa de construção de comunidades linguísticas e culturais numa era ambivalentemente pós-colonial, de processos híbridos intensificados e globalização acelerada." (ARENAS, 2010b)

 

 

1 While South Africa (and Namibia) and Zimbabwe were under the yoke of elite settler rule in the form of apartheid and UDI (Unilateral Declaration of Independence), the Portuguese fascist state maintained rule from the metropole and hobbled attempts at white rule in its colonies while supporting it regionally. On lusotropicalism see Cláudia Castelo, "O modo português de estar no mundo": O lusotropicalismo e a ideologia colonial portuguesa (1933-61) (Porto, Portugal: Edições Afrontamento, 1998).

2 Castelo, "O modo português," 50-51.

3 Basil Davidson, In the eye of the storm: Angola's People (Garden City, NJ: Doubleday, 1972) and Marcum, Angola Revolution, vols. 1 and 2.

Ver Piñeiro Íñigo (248).

5 Ver a tese de doutoramento de Joshua Lund, “The Muse and the Scientific Method: Hybridity and the Rise of Anthropological Discourse in Early 20th-Century Latin American Writing” (2002).


Bibliografia

ARENAS, Fernando  (2010a). "Reverberações lusotropicais: Gilberto Freyre em África 1 - Cabo Verde". Buala.org

ARENAS, Fernando (2010b). "Reverberações lusotropicais: Gilberto Freyre em África 2". Buala.org

CABRAL, Amilcar (1969). "Prefácio". Em: DAVIDSON, Basil. Révolution en Afrique. La libération de la Guinée Portugaise. Paris, Seuil, Col. Combats. pp. 11-12.

CASTELO, Cláudia (1998). "O modo português de estar no mundo": O lusotropicalismo e a ideologia colonial portuguesa (1933-61). Porto, Edições Afrontamento.

DAVIDSON, Basil (1972). In the eye of the storm: Angola's People. Garden City, New Jersey, Doubleday 

FREYRE, Gilberto (1961). "Preface". In: The Portuguese and the tropics: suggestions inspired by portugueses methods of integrating autocthons peoples and cultures differing from the european in a new, or luso-tropical complex of civilisation. Lisbon: Executive Committee for the Commemoration of the V Centenary of the Prince Henry the Navigator.

FREYRE, Gilberto (1972?). "Prefácio a edição em Língua Portuguesa de Lisboa". Novo mundo nos trópicos. Livros do Brasil, Lisboa, p.10

FREYRE, Gilberto (1985). Casa Grande y senzala. Caracas, Biblioteca Ayacucho, p.41

FRY, Peter (2004). “Continental Conquest?”. In: ARENAS,  Fernando & QUINLAN, Susan (eds.) Rev of Lusosex: Gender and Sexuality in the Portuguese-Speaking World.  Times Literary Supplement  (11 Jun 2004). p. 27.

MOORMAN , Marissa Jean (2008). Intonations: a social history of music and nation in Luanda, Angola, from 1945 to recent times. Athens, Ohio University Press, p. 37

MADUREIRA, Luís (1994). “Tropical Sex Fantasies and the Ambassador’s Other Death: The Difference in Portuguese Colonialism.” Cultural Critique  28. pp. 149-73.

MARCUM, Jhon A. The Angolan Revolution (1969, 1978). Vol 1, 2. London, MIT Press.

NETO, Maria da Conceição (1997). "Ideologias, contradições e mistificações da colonização de Angola no século XX". Lusotopie. Lusotropicalisme: Idéologie coloniales et identités nationale dans les mondes lusophones. París, Éditions Karthala. 

PINTO DE ANDRADE, Mário [alias Buanga Fele] (1955). "Qu'est-ce le "lusotropicalismo?". Présence africaine (1955). 4, Out.-Nov., p. 7. Em: NETO, Maria da Conceição (1997). "Ideologias, contradições e mistificações da colonização de Angola no século XX". Lusotopie. Lusotropicalisme: Idéologie coloniales et identités nationale dans les mondes lusophones. París, Éditions Karthala.

PIÑEIRO ÍÑIGUEZ, Carlos (1999). Sueños paralelos: Gilberto Freyre y el lusotropicalismo. Buenos Aires, Nuevohacer. 


ENLACES

PINTO DE ANDRADE, Mário (1958). "Cultura Negro-Africana e Assimilação"

AAVV (1997). Revue LusotopieLusotropicalisme: Idéologie coloniales et identités nationale dans les mondes lusophones.

DE ANDRADE, Mário (1961). "Portuguese Colonialism-Myths and Realities". The Crisis. Vol. 68, No. 4. New York, The Crisis Publishing Co., Inc. pp. 210-218.

Biblioteca Virtual Gilberto Freyre

 

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FREYRE, Gilberto. “Aventura e rotina: Sugestões de uma viagem à procura de constantes portuguesas de caráter e ação”

O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Nuno Abecasis e o doutor Azeredo Perdigão (Presidente Fundação Gulbenkian) à conversa com o professor Gilberto Freyre no final da conferência dada por este nos Paços do Concelho. Arquivo Municipal de Lisboa


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