António Ole

"(...) a obra plástica de António Ole tem contornos históricos e conceptuais de uma profunda solidez e tem evoluído e sobrevivido à margem da superficialidade e dos modismos. (...) António Ole nasceu, em Luanda, em 1951, numa cidade que já era cosmopolita desde os alvores do século XX. O comic americano esteve presente no ambiente visual da sua meninice e já na adolescência o Pop-art atraiu a sua atenção e quase que congestionou o seu olhar. (...)Como consequência da viagem ao país dos Cokwé, António Ole estrutura as suas pinturas da década dos 80. (...) António Ole começa a transfigurar a partir do momento em que, na sua obra, mais além da mímese, se foi munindo de referências históricas e culturais concretas susceptíveis de ser localizadas no imaginário angolano e ecuménico para, também, eclipsar os sentidos e as suas formas originárias e implantar, circunstancialmente, uma lógica em que se intervenham a medida, a reflexão metódica, a sua paixão pela arquitectura e o seu pouco extrovertido sentido de humor. Entre finais dos anos 60 e dos anos 90, António Ole transfigurou, sucessivamente, se não as simbologias pelo menos o modus facendi da Pop-art, da pintura mural Cokwé, materiais residuais (ferro, espelhos, sucata, placas de zinco), naturais (ossos, madeiras, mármore) e culturais em geral (vídeos, máscaras, anjos, príncipios Zen, etc.). (MIXINGE, 2009, p. 186-190) 

 

""Tive o privilégio de conhecer o José Redinha. Eu era colega de um dos seus filhos e estudávamos muitas vezes na sua casa, lanchávamos e aí tive acesso, pela mão do Redinha, àquilo que estava escondido no Museu de Angola. Não só o que estava exposto, mas tudo o resto. E então ele, perante a minha curiosidade, e apercebendo-se do meu interesse, começou logo a explicar-me as peças, o que cada uma representava, como eram usadas, em que tipo de rituais. Isto estimulou muito o meu interesse em ler as suas coisas e outros trabalhos sobre a mesma matéria. Foi um verdadeiro baptismo. Isso é uma coisa que devo ao Redinha." (...) Ficaram então reunidas, nestes anos de juventude, as três fontes de inspiração entre as quais se virá a desenvolver todo o trabalho artístico de Ole: a arte ocidental, a arquitectura popular do musseque e as tradições expressivas clássicas africanas." (DIAS, 2004, p. 4 -37)

 

""É evidente que não se falava à boca cheia, mas sempre havia, em famílias pequeno-burguesas angolanas como a minha, uma aspiração à liberdade e à independência. (...) Qualquer tipo de discurso que fosse provocatório, naquele tempo, na Angola colonial, era complicado. Eu senti-o na pele. Há uma obra que representa muito bem isso, com recurso a uma linguagem ambígua, inspirada na banda desenhada, porque não era possível um discurso claro contra o regime." (DIAS, 2004, p. 4 -37)

 



Bibliografia

DIAS, José António Fernandes (2004). "Conversando com António Ole" In: MACHADO, Rosário Sousa (ed). António Ole. Marcas de um Percurso (1970/2004). Catálogo da exposição, Lisboa, Grupo Caixa Geral de Depósitos, Culturgest, p. 4-37.

FALGAYRETTES-LEVEAU, Christiane (2010). "Figures de pouvoir" In: Angola. Figures de Pouvoir. Catálogo da exposiçao, Paris, Musée Dapper, p. 56-65.

FERNANDES, Joao (1995). "António Ole: da errância enquanto exercício de percepçao" In: MACHADO, Rosário Sousa (ed). António Ole. Marcas de um Percurso (1970/2004). Catálogo da exposição, Lisboa, Grupo Caixa Geral de Depósitos, Culturgest, p. 99-100.

HUG, Alfons (1998). "António Ole e o novo objet trouvé em África" In: MACHADO, Rosário Sousa (ed). António Ole. Marcas de um Percurso (1970/2004). Catálogo da exposição, Lisboa, Grupo Caixa Geral de Depósitos, Culturgest, p. 100-105.

MARQUES,  Lúcia (2011). "Objectos encontrados, viagens: o fecho de um ciclo criativo e outros reencontros". Buala (online)

MIXINGE, Adriano (2009). Made in Angola. Arte Contemporânea, Artistas e Debates, Paris, L'Harmattan. p.186-190

    — (2010). "Sobre a exposiçao Angola, Figuras de Poder". Buala (online)

SIEGERT, Nadine (2010). "A beleza da arquitectura elusiva". Buala (online)

 

Perfil António Ole - vídeo

António Ole - biografia artafrica.info

António Ole - exposiçao virtual

Report on Carnaval da Vitória, a 16mm film by António Ole



 

 

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