Fernando Monteiro de Castro Soromenho

"Nunca recolhi material. Africano nascido em Moçambique, mas medrado em Angola desde mal saído do berço, a Angola devo a minha vida de escritor. Quando em 1937 abandonei Angola, estava longe de vir a ser um escritor, depois de reviver a minha vida de Angola, fazendo tábua rasa de ideias feitas, dando-me conta de erros de interpretação originados pelo clima social vivido desde a infância numa sociedade em formação, heterogénea pela sua própria natureza, sem outras raízes que não fossem os seus interesses circunstanciais, e sempre marginal. colocado, no tempo e no espaço, numa posição que possibilitou novas perspectivas, o homem e sua forte autenticidade. E nunca mais deixei de estar em Angola, embora habitando em Lisboa ou no Rio de Janeiro, em Paris ou em Buenos Aires. Debruçado sobre a minha vida africana, servindo-me da minha própria experiência e da experiência dos homens que me levaram a meditar sobre a sua vida e no seu destino, procurei estudá-los, situando-os na sua idade histórica, no condicionamento do seu campo económico-social e nos planos das suas relações humanas. O homem em face do destino e nos limites da sua condição humana. Libertado de todos os preconceitos e prejuízos, sempre considerei os homens humanamente iguais, embora de civilizações diferente. Nenhum homem de cultura progressiva aceita a superioridade desta ou daquela civilização e sabe que os seus valores morais essenciais tem uma base comum. Daí a universalidade do homem para além das coordenadas definidas pelos padrões culturais que caracterizam as várias civilizações. Fora, ou à margem desta verdade, o homem toma posição racista, seja ele branco, amarelo ou negro. Uma posição anticultura. Tudo o mais diz respeito ao progresso das técnicas e da ciência, que qualquer homem de qualquer raça aprende, aplica e desenvolve consoante a sua capacidade e os meios que ponham ao seu dispor. " (MOURÃO, 1960)

 

"Quando os brancos fardados, primeiro os militares e muito mais tarde os administrativos, chegaram à vila, já a terra estava morta. Mas ainda se contavam histórias de brigas e de sangue, de roubos e de casas saqueadas, de morte de homem e de meninas desfloradas, tudo passado entre brancos e mulatos. Os negros viviam afastados, nas suas aldeias, onde os comerciantes iam pagar o imposto aos sobas.

Anos depois é que se encontrarem os primeiros diamantes, no rio Cassai, e vieram os pesquisadores da Companhia de Diamantes de Nordeste. Os comerciantes foram expulsos da zona mineira. Alguns forma presos porque lhes encontraram diamantes que os negros apanharam havia muitos anos nas areias dos rios e que não sabiam pertencerem à Companhia recentemente fundada…

Ruíram, ao abandono, as casas comerciais das como dentro da zona mineira, encham-se de mato os caminhos e muita gente emigrou, porque a terra estava morta e os brancos do Governo andavam a «caçar» homens para trabalhar por conta alheia. Mais tarde, lundus e quitocos regressaram às suas antigas terras, porque do outro lado da fronteira tambó~em havia brancos e minas e os castigos ainda eram mais duros: tronco, chicote e correntes ao pescoço durante o trabalho nas estradas." (CASTRO SOROMENHO, 1979)

 

"A inserção de Castro Soromenho (1910-1968), branco nascido em Moçambique, na literatura angolana faz-se por meio “da consciencialização política (anti-colonial) e através da adopção do discurso neo-realista”, marcado pelo não subjectivismo puro que leva a uma aproximação ao povo nas denúncias que faz do sistema colonial na Lunda. Ele denuncia o sistema colonial que conhece bem, tendo desempenhado funções de aspirante administrativo nessa região, o que lhe permitiu, a par das tarefas de colecta de impostos, contactar com a cultura africana (VENÂNCIO, 1993, p. 49). Pergunto o mesmo que José Carlos Venâncio: será que “Castro Soromenho se sentiu um escritor angolano?”. Nunca se identificou com a angolanidade, apesar das críticas ao sistema colonial, que não são um fundamento deste sentimento de pertença (VENÂNCIO, 1993, p. 55). Bibiano Santos considera que uma das problemáticas em torno de Castro Soromenho é o facto de ele ser um escritor de origem europeia e, assim, de que modo poderá defender a “reafricanização dos espíritos” (SANTOS, 1985, p.160) ou, se quisermos, ser descolonizador de literatura." (LOPES DE SÁ)

Bibliografia

CASTRO SOROMENHO, Fernando Monteiro de(1979). Terra Morta. Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora. 4a Edição, p.226.

MOURÃO, Fernando (1960). "Entrevista com Castro Soromenho". Em Cultura, No. 11, 2a série. Sociedade Cultural de Angola, Luanda. Em ERVEDOSA, Carlos (?). Roteiro da Literatura Angolana. 2da Ed. Ediçoes 70, Lisboa. p. 75-76.

MOURÃO, Fernando (?). "Breve apontamento sobre a "Viragem" de Castro Soromenho". Boletim Mensagem. Ano II, No. 3. Lisboa, Casa dos Estudantes do Império. pp. 6-9. En: FERREIRA, Manuel (Ed.) (1992). Mensagem: Boletim da Casa dos Estudantes do Império. Vol. 1, Lisboa, ALAC.

CASTRO SOROMENHO, Fernando Monteiro de (1979). Terra Morta. Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora. 4a Edição, p.226

LOPES DE SÁ, Ana Lucía. A ruralidade na narrativa angolana. p14 

SANTOS, Bibiano (1985). “Problématique de la recherche d’identité chez Castro Soromenho”, in AA. VV., Les Littératures Africaines de Langue Portugaise. A la Recherche de l’Identité Individuelle et Nationale, Paris, Fondation Calouste Gulbenkian e Centre Culturel Portugais, p. 159-167

VENÂNCIO, José Carlos (1993). Uma Perspectiva Etnológica da Literatura Angolana. “Chuva chove em cima da nossa terra de Luanda”, Lisboa, Ulmeiro.


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