Amílcar Cabral

«Se o domínio imperialista tem como necessidade vital praticar a opressão cultural, a libertação nacional é, necessariamente, um acto de cultura.»

«O fundador da Nacionalidade, como é chamado Cabral tanto na Guiné-Bissau como em Cabo Verde, formulou às diversas comunidades étnicas que conformam a Guiné-Bissau a necessidade e o sentimento de comunidade nacional identificada e hegemonizada para enfrentar o colonialismo português, cuja estrutura estática modelou comportamentos desiguais e frustrantes. O processo de "nacionalizar" essas comunidades étnicas auto-identificando-as num destino comum e contraposto à "verdade" colonial. Assumir o conceito de nação e ligar várias comunidades étnicas significou para Cabral valorizar a leitura leninista sobre o processo do partido da vanguarda de uma nação composta por esse fenómeno étnico e tribal. (...)

O problema nacional, na luta de libertação nacional da Guiné-Bissau e Cabo Verde representou para Cabral compreender os princípios dialécticos do processo de descolonização e a formação de uma série de condutos sobre a identidade nacional que permitisse aceder à autodeterminação nacional. (...)

Para Cabral, o nacionalismo revolucionário era um motor de mudança que podia abrir as possibilidades de normalizar várias expressões verificadas no internacionalismo proletário. (...)

REVER(A) consciência nacional e a de classe têm de ser explicadas, nos países colonizados, através de uma análise mais sociológica do que ideológica, de forma a desarticular esse "nacionalismo" burguês e as bases de acção deste, amparadas na ideologia colonialista e imperialista e cujos postulados robustecem e preservam os interesses do Ocidente. (...)

"Consciência nacional" e "identidade nacional" concorrem em Amílcar Cabral, o que levou certos estudiosos do ideólogo a confudir ambos os conceitos com o de "africanidade". (...) Talvez "consciência nacional" não tenha, com frequência, o carácter nacionalista, tal como se entende na Europa, mas sim de afirmação de identidade, referindo-se em vários aspectos à reivindicação cultural, como fase prioritária para aceder à consciência nacional. (...)

Pode ser que em certos pontos o discurso de Cabral se pareça com o de Franz Fanon quanto ao papel do intelectual colonizado que deve assumir a "verdade nacional". O de Cabral marca diferenças entre essa "verdade nacional" fanoista e retoma a consciência nacional como base indispensável para conferir ao movimentos nacionalista credibilidade e impulsiona-o sob um organigrama que vise fortalecer a cultura na hora de alcançar a soberania nacional. Neste sentido, em Cabral localizamos vários registos sociológicos focados e tendo em vista a estratégia de aculturação, em fase permanente, para resistir em várias frentes com a cultural nacional.

Tanto Cabral como Fanon souberam discernir as diversas frequências e mutações que se produzem em certos esquemas de cultura para que essa utilidade dialéctica, na formação nacionalista, acelere as estruturas globais em cada atributo de que dispõe as nações em fase de independência e como fruto dessa consciência nacional, à qual a cultura forneceu, de facto, a sua própria identidade.»

 

Bibliografia

CABRAL, Amílcar, "Libertação nacional e cultura". In: buala.org

CABRAL, Amílcar (1949). "Comentários". Circular Mensagem. Ano II, No. 11. Lisboa, Casa do Estudantes do Império. pp. 20-23. Em: FERREIRA, Manuel (Ed.) (1992). Mensagem: Boletim da Casa dos Estudantes do Império. Vol. 1, Lisboa, ALAC.

CABRAL, Amílcar (1946). "Poema". Circular Mensagem (1949). Ano II, No. 11. Lisboa, Casa do Estudantes do Império. p. 16. Em: FERREIRA, Manuel (Ed.) (1992). Mensagem: Boletim da Casa dos Estudantes do Império. Vol. 1, Lisboa, ALAC.

CABRAL, Amílcar (1968). "Foreword". In: DAVIDSON, Basil (1969). The liberation of Guiné. Great Britain, Penguin Books. pp. 9-15.
 
GARCÍA, Xosé Loís, (1999). "Amílcar Cabral: Ideologia, Nacionalismo e Cultura". In: CABRAL, Amílcar (1999). Amílcar Cabral, Nacionalismo e Cultura.  Galiza, Edicións Laiovento. pp. 9-26
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