Casa dos Estudantes do Império

"A Casa dos Estudantes do Império foi um associação fundada em Lisboa em 1943, com sede no edifício da Avenida Duque d'Ávila, 23, ao Arco do Cego, a partir de associações regionais ultramarinas e sob a tutela de um destacado ideólogo do regime. Os Governos Generais garantiam o seu funcionamento através de diversas parcelas do então chamado Império Colonial Portugués. Por falta de escolas tinham de vir a Metrópole concluir os estudos superiores. Foi tal circunstancia que os levou ao encontro de um modo de complementar necessidades comuns específicas de formação cultural e cívica que a  Universidade estava muito longe de satisfazer. Era constituída por secções autónomas atinentes aos territórios ultramarinos (Cabo Verde e Guiné, S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Estado da Índia, Macau e Timor), tendo sido criadas delegações no Porto e em Coimbra." (FARIA, 1995, p.21)

"A criação da Casa dos Estudiantes do Império tinha por objectivo claro o criar elites. Isso gerou um desfasamento significativo que o tempo acentuo. A realidade colonial seguiu um desenvolvimento distinto da realidade em que essa elite era preparada. Uma coisa era o desenvolvimento real, concreto, quotidiano da colónia, outra coisa era o projecto místico e a memória transportada para Lisboa, Coimbra ou Porto de acordo com a sensibilidade de cada um. O confronto dessas realidades e da acção prática.  As consequências sao mais ou menos conhecidas. Estamos a vive-las. Isso significa que temos assistido a omissão do nosso testemunho verdadeiro." (FARIA, 1995, p.?)

 

"Todo este movimento de produção e divulgação culturais - e de intervenção cívica -, não concitou a unanimidade ou a homogeneidade de intenções, comportamentos e resultados na comunidade dos estudantes que de África demandavam a Europa. Alfredo Margarido, (…) afirma que ¨na Avenida de Duque d'Avila só havia independentistas¨, mas resta saber que tipo de independência propugnavam, tanto mais que, logo depois, acrescenta que ¨não existia então em Portugal um vero pensamento anti-colonial¨1 (sendo os africanos os autênticos portadores desse pensamento, parece ser o sentido lógico dado por Margarido ao aludir à maioria dos associados da CEI). Por outro lado, podemos supor como antes e depois da luta armada de libertação nacional, certas correntes de pensamento pró-colonial e pós-colonial, a partir de escritos de Gilberto Freyre, Vieira Machado, Manuel Múrias, Marcello Caetano, Henrique Cabrita, Quirino de Jesus, Lourenço Cayolla, Silva Cunha, José de Oliveira2, entre outros, terao influenciado estudantes africanos brancos e mestiços. Basta recordar as oscilações ou mudanças ideológicas e/ou comportamentais de Ernesto Lara Filho, Francisco José Tenreiro, Mário Antonio Fernandes de Oliveira3, Manuel dos Santos Lima, Victor Matos e Sá ou mesmo Carlos Ervedosa (este quando publicou uma versão bastante auto-controlada de seu Itinerário da literatura angolana, em 1972, em Luanda4." (LARANJEIRA, 1996, pp. XIV-XV)

"Até 1952, numa 1a fase, a CEI funcionou sem qualquer anormalidade, promovendo actividades culturais, desportivas, recreativas e assistenciais, com lugar para exposições, recitais de poesia e palestras, além de editar 13 n.os (alguns não singulares) da circular intitulada Mensagem. A partir de 1948, a CEI já era mais ¨africana¨ do que ¨imperial¨. Exactamente por isso, uma comissão administrativa (por tanto estreitamente ligado ao poder) apossou-se da direcção da CEI, entre 1952 e 1957, marcando a sua 2a fase, em que não foi publicado qualquer órgão de (in)formação. (…) Entre 1957 e 1961, durante a 3a fase, a CEI voltou a ter uma grande actividade (recuperando centenas de associados), incluindo a publicação da Mensagem, agora transformada em boletim, ansiando sempre por passar a revista, o que nunca aconteceu nos termos em que as direcções o sonhavam, mas cuja funcionalidade não deixai de ser idêntica. A CEI voltou a estar sob a alçada de uma comissão administrativa, durante os primeiros sete meses de 1961, em resultado dos acontecimentos revolucionários de Angola (início da luta armada de libertação nacional), tendo, então, deixado de receber os subsídios provenientes dos orçamentos das ¨Províncias Ultramarinas¨ canalizados pelo Ministério do Ultramar. A partir daí, e até 1965, quando se deu o seu encerramento por motivos políticos, durante a vigência da 4a fás, vivida por entre enormes dificuldades, a CEI tornou-se cada vez mais politizada e um alfobre de jovens militantes das causas independentistas, muitos dos quais a iam abandonado, bem como a Portugal, rumo ao exílio e à guerrilha, sobretudo a partir de 1959 e, mais ainda, de 1961." (LARANJEIRA, 1996, pp. XVII-XIX)

"A CEI foi encerrada compulsivamente, pela policía política, nesse ano de 1965, no contexto do encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores, por esta ter atribuído o Grande Prémio de Novelística a Luuanda, de José Luandino Vieira, tendo entretanto, proibido também as Ediçoes Imbondeiro, de Sá de Bandeira (Huíla, Angola), actos decisivos numa longa histórica de proibições, que não deixavam espaço sequer para uma terceira via (independentista, mas quiçá moderada, quiçá ecuménica), a de homens, no caso angolano, como Carlos Ervedosa, Manuel dos Santos Lima e, provavelmente, Mário Pinto de Andrade (da sua fase de ruptura com o MPLA), que terão visionariamente previsto a fogueira da história e, recusando a primeira via, do integracionismo no Império, não conseguiram viver na terra prometida o sonho de uma nova nação que os recebesse sem restrições. A política faz-se com rupturas e excluçoes e, por isso, não admira que, desde o início, embora a CEI pugnasse por trilhar a segunda via (a da independência nacional das colónias), ela sofresse uma evolução política e cultural atravessada por clivagens entre a tendência negro-africana (de ressentimento e ânsia irrestrita de poder) e a tendência do humanismo ecléctico (de fraternidade e partilha do trabajo)." (LARANJEIRA, 1996, pp. XXX-XXXI)

 

1 MARGARIDO, Alfredo (1994) ¨Projectos e limites da CEI¨, em Discursos (tema: ¨Literaturas africanas e língua portuguesa¨), n. 9 (Fevereiro 1995), Coimbra, Universidade Aberta, pp. 156-157.

2 Desde o sociólogo do luso-tropicalismo, aos ministros e ao panegirista de Salazar, passando pelo biógrafo de Sá de Bandeira e António Enes, até ao teórico da ¨literatura africana¨, com expressão ainda em Manuel Jose Homem de Mello e Cunha Leal, este defensor da tese, não integracionista, de um regime de associativismo quanto ao todo imperial, que comportasse a rotação periódica dos órgãos superiores da nação entre as capitais de Lisboa, Luanda e Lourenço Marques.

3 Alfredo Margarido escreve que ¨os africanos da CEI estavam alguns ainda marcados pelo luso-tropicalismo em Angola claramente defendido por Mário António (Fernandes de Oliveira), que gozava de um grande prestígio intelectual¨ - em ¨A literatura e a consciência nacional¨, em A. Freudenthal, R. Magalhães, H. Pedro e C. Veiga Pereira (org.), Antologias de poesia da Casa dos Estudantes de Império. 1951 - 1963, vol. 1, Lisboa, ACEI, 1994, p. 14, Margarido, noutro local, acrescenta que Mário António ¨nunca fez coisa alguma na CEI¨. 

4 Recordamos-nos de, em 1973, em Luanda, ouvir comentar esse livro de modo negativo, por fazer concessões, ao ter retirado autores como Agostinho Neto e incluído Reis Ventura.



Outras publicações da CEI

Revista Meridiano


Bibliografia

FARIA, António (1995). A Casa dos Estudantes do Império: Itinerário Histórico. Lisboa, Ediçao Cámara Municipal de Lisboa. pp. ?

LARANJEIRA, Pires. “Introdução”. Uma casa de mensajes anti-imperais. Em FERREIRA, Manuel (Ed.) (1996) Mesagem: boletim da Casa dos estudantes do Império. Vol 1. Lisboa, ALAC. pp. XIV-XV, XVII-XIX, XXX-XXXI.

MARGARIDO, Alfredo (1995) ¨Projectos e limites da CEI¨. Em Discursos (tema: ¨Literaturas africanas e língua portuguesa¨), No. 9 (Fevereiro 1995), Coimbra, Universidade Aberta, pp. 156-157.

MARGARIDO, Alfredo (1994) ¨A literatura e a consciência nacional¨, em FREUDENTHAL, A., MAGALHÃES, H., VEIGA PEREIRA, Pedro e C. (ed.), Antologias de poesia da Casa dos Estudantes de Império, 1951 - 1963. Vol. 1, Lisboa, ACEI, p. 14.

FERREIRA, Manuel (Ed.) (1992). Mensagem: Boletim da Casa dos Estudantes do Império. Vol. 1, Lisboa, ALAC.

 

Enlaces 

MUD Juvenil

Arquivo Municipal de Lisboa

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